Não é que seja racista, mas convém que as cores que enxerga sejam todas, menos o vermelho. No entanto, fica feliz quando o verde se transforma em vermelho, pois tem ali à mão um adversário. E como aquela cor predomina à sua volta, vê adversários em todo o lado, o que lhe dá imenso que fazer. No entanto, depende muito do foco e o seu é erradicar o vermelho, o que vem muito a calhar o daltonismo. Vê o mundo cinza, mas depende da pigmentação do objetivo focado. O preto serve-lhe na roupa, mas não na pele. Não é bem-visto, faz-lhe lembrar povos incultos e selvagens sem direitos alguns. Como é possível pensarem que é racista, se ele próprio é judeu, mas não quer que se saiba! O culto religioso tem cores brancas, púrpuras e douradas que ele preza, mas tem de estar em sintonia com o seu lema: “ou está comigo, ou está contra mim” e por extensão contra a pátria. A sua cor preferida é o azul e branco, da sua bandeira. Sempre presente, em casa e no trabalho. Quanto à família ela é monocromática, só a sua cor deve sobressair. Deus, pátria, família é o “slogan” a seguir.

Eu me confesso

Um turbilhão de pensamentos martela-me o cérebro. Enche-me o peito de raiva e culpa pelo ato que pratiquei. Não consigo sossegar. Deslizo para o dia em que cometi o crime. Mas será que cometi mesmo?

Quer o tenha feito ou não, pesa-me um remorso que me dói nas têmporas. Tudo se coaduna para que tenha acontecido. A oportunidade existira. Por que o fizera ou porque retrocedera? Por medo, covardia? Enredado numa teia de emoções, o ato está envolto numa nebulosa que não me deixa ver a realidade. E a voz? “Para!” ─ dizia num sussurro. Não sei se lhe obedeci. A verdade é que tinha todos os motivos e condições para concretizar o ato. Lembro-me de levar a mão ao bolso em que estava a arma e pensar “se ele fizer um movimento que seja, disparo”. Vi-o avançar e a partir daí nada mais. E agora estou a braços com um ressentimento de o ter feito ou não. Noticiaram um morto e eu estive lá no local. O que será de mim se o tiver  cometido? Serei mais feliz ou miserável? E se o fiz, devo a mim próprio um arrependimento? Não consigo perceber porque é que aquele segurança do bar não me deixava entrar. Falei-lhe ao coração, não se comoveu. Então pensei em tirá-lo do caminho.  Foi quando ele avançou e depois não recordo mais nada. O meu amigo João trouxe-me para casa. Testemunha do que aconteceu, sabe a verdade, mas eu não quero saber.

Este é o castigo para um crime que provavelmente nem cometi.

A ceifeira e a morte

A ceifeira, a um canto da casa da Dona Morte, congeminava deixá-la:

─Hoje recuso-me a trabalhar − disse a ceifeira.

─ A sério, retorquiu a morte e pode saber-se por quê?. Acompanhas-me há milénios e só agora é que te deu para me afrontares!

─É que já não há mortes como antigamente em que ceifavas uma vida aqui, outra ali e pelo meio pessoas que te pediam para me usares e acabar com elas. Mas agora ceifas a eito e estou velha e cansada!

─Isto, porque sou constantemente chamada e agora com as guerras, não paro. Culpa do homem!

─Eu acho que devias modernizar-te, isto da ceifeira é muito rural, já não se usa, por exemplo, arranjas um programa que tenha uma base de dados de toda a humanidade e nem precisas de sair de casa. Basta selecionares a pessoa que deve morrer, mandá-la para a reciclagem que alguém recolherá o lixo. E mais, esse programa terá definido qual a idade máxima permitida.

─Que grande ideia! Vou seguir o teu conselho, quer dizer que é só usar o dedo. A sua morte à distância de um clique! Gosto!

Ninguém sai

O céu, atravessado de poeiras vindas do Saara, tornara-se numa massa opaca, impenetrável, um véu de chumbo suspenso sobre a cidade de Faro. Durante a noite, as chuvas ácidas caíram com fúria. Corroeram o metal dos postes, abriram fendas nas fachadas dos prédios e queimaram a vegetação que ainda resistia nas varandas. O ar cheirava a enxofre e a esgoto.

Leo assomou à janela com o rosto vincado pela almofada e os olhos febris de quem não dormia bem, há dias. Lá fora, o caos: contentores de lixo boiavam na lama e os carros atolados pareciam esqueletos de animais vencidos.

O aterro sanitário tinha extravasado, qual monstro velho que já não conseguia conter a podridão. Os vales artificiais de lixo escorriam pelas encostas e avançavam pelas ruas como uma língua negra que tudo engolia: pneus, animais mortos, fragmentos de móveis e memórias.

Com a manga limpou a vidraça embaciada. Nada para ver com clareza, só o borrão indistinto de um planeta em colapso. Uma dor latente no peito, prenúncio de luto. Já não havia futuro ali, mas uma sucessão de dias cinzentos onde se sobrevivia por inércia.

—Isto não é viver — murmurou, para ninguém.

As lágrimas não vieram, estavam secas, como as terras antes das chuvas.

Leo desceu os três lanços de escadas em silêncio, escutando apenas o som abafado das botas nas lajes sujas. O elevador há muito deixara de funcionar, como tantas outras coisas. Os cabos de luz pendiam do teto e um cheiro ácido de fumo elétrico desprendia-se das paredes.

Na rua, a luz era cinza-clara, duma claridade falsa, filtrada pelas nuvens de poeira suspensas no ar. O mundo parecia coberto por um manto de morte lenta. As árvores carbonizadas, troncos apodrecidos, morriam de pé.

Atento ao chão instável, Leo caminhava, desviando-se dos charcos de óleo e montes de lixo endurecido pela chuva tóxica. Cada passo era um esforço: a roupa protetora, ainda que leve, parecia pesar uma tonelada.

Uma dor aguda crescia-me nas têmporas — era fome, sede, talvez saudade da minha irmã, desaparecida semanas antes sem deixar sinal. Restava a hipótese de se ter juntado aos que tentavam atravessar o cordão sanitário a sul, em busca de zonas menos contaminadas. Ou talvez já fosse só um número, um corpo anónimo num saco preto.

À esquina do antigo jardim municipal —agora uma clareira lamacenta onde antes havia bancos e Hortênsias —ouvi um som metálico: clic-clac. Parei. O som repetiu-se. Rígido, virei-me devagar.

Um autómato de vigilância a poucos metros, de cúpula metálica e olhos vermelhos, intercetou-me. As palavras, «Zona em quarentena – Registo Obrigatório» tremeluziam na frente, projetadas num holograma.

Leo ergueu o braço direito e aproximou o pulso do scanner. Um feixe azulado varreu o chip sob a pele. O autómato zumbiu, processando os dados. Houve um segundo de espera. Nem respirava, qualquer falha no registo e seria levado. Sumiriam comigo num transporte selado, para sempre. Ninguém procurava desaparecidos. Finalmente, o sinal verde piscou. «Acesso autorizado. Tempo limite: 47 minutos». Assenti com a cabeça e segui. O Centro Comunitário ficava perto, mas parecia noutra cidade. Já não pensava na irmã. Agora só pensava em encontrar os pacotes de nutrientes antes de se esgotarem. E, com sorte, uma cápsula extra de água potável.

O céu ribombou e apressei o passo. Não havia abrigo para quem parasse.

Cheguei a casa encharcado de suor, lama e medo. A cidade parecia cada vez mais uma armadilha — ruas estreitas transformadas em corredores de morte, onde o olhar de um robô ou o simples ato de respirar podiam decidir o destino de alguém.

Liguei o terminal. A tela brilhou brevemente antes de piscar, como se hesitasse. E então, uma frase surgiu no ecrã, em letras cinzentas sobre fundo negro: «Eles sabem que estás a tentar sair». Nenhuma assinatura, nenhum remetente.

Leo sentiu um calafrio. Tentar sair? Sim. Escapar da cidade, do continente, do plano cuidadosamente montado por governos que já não escondiam os seus propósitos.

Caminhei até à janela, puxei a cortina com dois dedos. Lá fora, um “drone” pairava, imóvel. O visor apontado para a janela. Acabara de captar a minha reação.

Afastei-me num salto e desliguei o terminal, mas era tarde demais. Eles sabiam. Mas como?

Tinha usado modo escuro, rede isolada, firewall tripla, algoritmos de camuflagem que o meu amigo programador me deixara antes de desaparecer. Entregara-me um código para aceder ao sistema antigo. Teria sido traído? Vigiado desde o início?

Voltei a ligar o terminal, desta vez apenas para confirmar: o histórico de navegação estava limpo. Nada registado, mas sabia que isso significava pouco. Eles não precisavam de provas, bastava a intenção.

Nos dias anteriores, acedera a ficheiros ocultos. Encontrara o nome do projeto: Códice Verde. Vídeos, gravações, planos dos grandes blocos. A estratégia do G3 — a aliança entre os Estados Unidos, Rússia e China — para provocar o colapso ambiental controlado. Redução populacional, centralização de recursos, preservação de elites.

A mensagem, fez-me tomar uma decisão. Não podia mais confiar na rede, na casa, no bairro, em ninguém.

Tirei o terminal do encaixe e esmaguei-o com uma pancada seca contra o canto da mesa. O vidro e os circuitos estalaram. O silêncio que se seguiu foi absoluto. Retirei de um compartimento escondido na parede, um pequeno saco de viagem. Lá dentro, o fato protetor, um mapa dobrado da zona vermelha e uma cápsula de memória. Tudo o que reunira desde que Ana desaparecera.

Agora tinha quase a certeza: ela descobrira algo. Talvez o mesmo ou mais e por isso tentara sair. Tal como eu agora.

Respirou fundo, o “drone” desaparecera, mas outros viriam. A cidade já não era um abrigo, era um campo de espera, mas Leo não ia esperar.