Um turbilhão de pensamentos martela-me o cérebro. Enche-me o peito de raiva e culpa pelo ato que pratiquei. Não consigo sossegar. Deslizo para o dia em que cometi o crime. Mas será que cometi mesmo?

Quer o tenha feito ou não, pesa-me um remorso que me dói nas têmporas. Tudo se coaduna para que tenha acontecido. A oportunidade existira. Por que o fizera ou porque retrocedera? Por medo, covardia? Enredado numa teia de emoções, o ato está envolto numa nebulosa que não me deixa ver a realidade. E a voz? “Para!” ─ dizia num sussurro. Não sei se lhe obedeci. A verdade é que tinha todos os motivos e condições para concretizar o ato. Lembro-me de levar a mão ao bolso em que estava a arma e pensar “se ele fizer um movimento que seja, disparo”. Vi-o avançar e a partir daí nada mais. E agora estou a braços com um ressentimento de o ter feito ou não. Noticiaram um morto e eu estive lá no local. O que será de mim se o tiver  cometido? Serei mais feliz ou miserável? E se o fiz, devo a mim próprio um arrependimento? Não consigo perceber porque é que aquele segurança do bar não me deixava entrar. Falei-lhe ao coração, não se comoveu. Então pensei em tirá-lo do caminho.  Foi quando ele avançou e depois não recordo mais nada. O meu amigo João trouxe-me para casa. Testemunha do que aconteceu, sabe a verdade, mas eu não quero saber.

Este é o castigo para um crime que provavelmente nem cometi.